Precisamos falar sobre o Kevin

LITERATURA

Discutir a natureza humana persiste em ser um dos focos de conteúdo da literatura no decorrer das décadas; de certa forma todos os diálogos e cenas que expressam um sentimento estão rondando pessoas e suas motivações. Todo indivíduo busca algo quando realiza determinada ação – negar essa afirmação é negar a sua existência e os motivos criados para preenchê-la.

Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que incomoda. Sua narrativa lúgubre e que aborda pensamentos íntimos da personagem Eva é contada através de cartas escritas para o seu marido Franklin; o que caracteriza o livro como um romance epistolar (contado através de cartas que expressam os anseios e pensamentos de uma personagem em primeira pessoa). Se os seres humanos precisam de motivações para continuar existindo, qual seria o norte a guiar um indivíduo que não enxerga a beleza em nenhum ato que busca a felicidade? Kevin Khatchadourian, da infância à adolescência, nunca ostentou uma expressão verdadeira de prazer – a aversão à qualquer coisa que gerasse alegria e calor humano começou logo nos primeiros suspiros de vida de KK, quando a recusa de mamar no peito de sua mãe a privou da reciprocidade que qualquer mulher busca no ato de amamentar.

Fundadora da A wing & a prayer, Eva Khatchadourian é de descendência romena, nova iorquina por opção e totalmente dedicada à sua vida na sua agência de guias de viagens. Seu marido Franklin tem orgulho de ser americano, gosta de enfatizar que a liberdade dos Estados Unidos não pode ser encontrada em nenhum outro país que Eva já tenha visitado durante a escrita de seus guias para mochileiros; Eva e Franklin são opostos: democrata e republicano, multicultural e cegamente patriota; ela acha que a vida dos dois está completa pelo fato de eles terem um ao outro, enquanto ele pensa que apenas um filho irá conseguir preencher seu vazio. Ou melhor dizendo, a ambição de Franklin para seguir em frente era ter um filho. Eva sempre notava o jeito que a feição de Franklin mudava quando brincava com as filhas de amigos do casal, o que gerava um sentimento de prepotência na relação dos dois – Eva não entendia como não conseguia preencher aquele vazio que para Franklin só seria completo com um filho. O amor incondicional por Franklin pesa mais que a aversão a ter um filho, e assim Kevin nasce em uma nova casa fora de Nova York, grande, moderna e que abrigava dois adultos que não compartilhavam inicialmente da ideia de ter um primogênito.

Foi quando Eva ainda estava se acostumando com a ideia de trabalhar em casa pela AW&AP que Kevin começou a demonstrar certos traços que não eram comuns em crianças de desenvolvimento considerado normal. Sua mãe tinha reunido todos os mapas de metrôs, de linhas de trem e de pequenos vilarejos da Europa para montar uma decoração em um dos quartos que ela considerava tolerável trabalhar, dentre todos os outros cômodos daquela casa imensa que Eva detestava. Depois de ficar meses dedicando todo o seu tempo a um filho que não demonstrava atenção e afeto pela sua figura materna, Eva tinha decidido que montar um quarto que fosse exatamente do jeito que ela queria era seu objetivo maior, mesmo naquela casa repleta de brinquedos dos quais Kevin não tinha interesse algum. Voltar a trabalhar escrevendo seus roteiros de viagens, e quiçá até voltar a viajar em uma frequência muito menor do que quando não era mãe, compunham a check list que Eva queria muito preencher para voltar a ser a pessoa que era. Foi durante esse período de transição que Kevin talvez tenha entendido a única coisa que lhe dava uma dose de prazer: destruir qualquer objeto ou sonho que garantisse alegria às pessoas ao seu redor. Quando sua mãe não estava mais no quarto, que naquele momento já estava exatamente do jeito que Eva queria, Kevin destruiu todos os mapas com uma arma de água que havia sido carregada com tinta preta minutos antes. Destruir aquilo que dava alegria à existência da sua mãe, mas não apenas da sua mãe, pareceu ser o único motivo verdadeiramente importante para Kevin seguir com a sua vida.

Quando a maternidade se torna uma escolha para Eva, ela decide ter mais um filho com Franklin; sua motivação era movida com o objetivo de provar que ela estava apta a ser mãe, e que na verdade todos os problemas pelos quais a família estava passando eram ocasionados por Kevin. Logo no nascimento, Celia, a mais nova integrante da família Khatchadourian, já demonstrava ser totalmente diferente do irmão. Sempre com um olhar interessado e gracioso, a menina era meiga e doce de uma forma que Eva não estava acostumada. Seu medo de que Franklin trataria a criança de uma forma diferente da qual tratava Kevin foi se tornando cada vez mais distante com a figura presente que ele se tornou na vida de Celia.

Com os relatos de Eva, o leitor vai se acostumando com o final dessa trama trágica; e a cada episódio sombrio fica mais fácil de entender como a quinta-feira fatídica ocorreu. Um massacres quase nunca apresenta uma explicação racional, ainda mais quando ocorrem no local em que adolescentes e crianças deveriam se sentir seguros e livres. As motivações de Kevin para prender um grupo de alunos no ginásio e alvejá-los com flechas não são totalmente explicadas – afinal, nem mesmo Kevin sabia o motivo de ter feito aquilo. A personalidade do garoto enquanto adolescente era totalmente contrária àquela que adultos normalmente esperam encontrar em jovens na puberdade. Kevin não tinha interesses, não possuía amigos de verdade, seu quarto era minimalista e monocromático demais e durante toda a trama o leitor percebe padrões mórbidos na vida familiar dos Khatchadourian.

Precisamos falar sobre o Kevin é um ótimo livro; sua escrita em forma de cartas, o que caracteriza um romance epistolar, foi um ótima escolha da autora Lionel Shriver para transmitir toda a carga emocional de uma vida completa de decepções e tragédias. Fica recomendado aqui o filme homônimo da diretora Lynne Ramsay, que apresenta fotografia impactante e uma paleta vermelha cor sangue.

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