As parceiras, de Lya Luft – opinião | Sangria.blog

A narrativa do romance de estréia de Lya Luft – as parceiras – apresenta um grande número de episódios melancólicos que rondam a vida da família de Anelise, personagem principal do romance intimista da autora gaúcha. Ao invés de escrever sobre a vida cotidiana e acontecimentos corriqueiros, a autora busca explorar o que há de mais lúgubre e desesperador na existência humana: o medo. Anelise é uma mulher repleta de medos que decide passar uma semana no chalé da família na beira da praia; acompanhada pelo seu fiel São Bernardo e pela empregada Nazaré, Anelise relembra dos medos da vida, e traça um paralelo entre a pessoa que é hoje e as expectativas que tinha em relação ao seu futuro. A maior apreensão da personagem possuía raízes em sua família, composta essencialmente por mulheres com vidas tristes e desfechos desafortunados.

Talvez a melancolia da família tenha começado com a vida enclausurada e sofrida de sua avó Catarina; casada desde os quatorze anos com um marido muito mais velho, e que lhe submetia à situações não consentidas por ambas as partes. Catarina deu à luz a três mulheres: Beata, que usou a Igreja como o seu ópio; Dora, pintora, e segundo Anelise, a única mulher da família que conseguiu cultivar uma vida tranquila e feliz; Sibila, portadora de síndrome de Down e dependente de suas irmãs; e por fim Norma, mãe de Anelise. O fim da história de Norma chega muito cedo no livro, na forma de um acidente de avião que acaba com a vida dos dois pais de Anelise.

Além do medo e da solidão, a morte foi sempre um fator presente no crescimento e desenvolvimento da personagem; não apenas a morte dos seus pais, mas também da melhor amiga de infância, que é engolida pelos rochedos e pelas ondas intensas da praia. Para Anelise, todas as pessoas ao seu redor pareciam possuir dois possíveis destinos: a tristeza ou a morte. Foi só quando começou a manter contato regular com seu primo Otávio, no casarão, que começou a ver a vida através de outras lentes. Suas primeiras descobertas do mundo sexual foram concretizadas com o filho de sua tia Dora, um garoto talentoso e que expressava todo seu esplendor no piano. Mas mesmo Otávio parece deixar Anelise de lado com o passar dos anos; decide ir para a Europa e acaba voltando noivo de uma mulher que conheceu por lá.

A vida adulta de Anelise foi marcada por diversas tentativas de ter um filho com o seu marido Thiago. Após diversas frustrações e episódios traumáticos para o casal, ela finalmente consegue sustentar uma gravidez até os últimos meses de gestação. No dia do parto, a criança – Lalo – nasce com uma doença degenerativa que lhe garante uma sobrevida de apenas dois anos. A partir do dia do nascimento de Lalo, Anelise vive de forma ainda mais lúgubre e sombria, e sua rotina é baseada na espera da morte do filho que vive em estado vegetativo. A única gravidez que havia vingado não reage ao mundo externo, suas expectativas de mãe não respondidas e um marido que já não lhe dirige mais um olhar apaixonado são as barreiras da felicidade da vida de Anelise. Depois de uma vida de decepções e tristezas, ela pensa que talvez seu destino realmente seja ficar enclausurada no casarão da família na beira da praia, e nem ao menos tentar combater a solidão daquele lugar.

Os capítulos do livro são divididos conforme os dias da semana que Anelise passa na casa da sua família lembrando de tudo que foi vivido até o presente momento. As parceiras é um livro marcante, forte, com uma voz única e que não peca em mostrar o lado mais sombrio da mente humana.

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