O cortiço, de Aluísio de Azevedo | Sangria.blog

LITERATURA

Principal livro do Naturalismo, O Cortiço, escrito por Aluísio de Azevedo e publicado no ano de 1890, denuncia os horrores e explicita os prazeres da classe mais desfavorecida em um Rio de Janeiro que engatinhava no processo de abolição da escravatura. A obra foi escrita tomando por base as observações do autor acerca da sociedade fluminense pobre, quando as habitações populares – casas de pensão, e mais tarde, os cortiços – preocupavam o governo por crescer de forma desgovernada, barulhenta e mal vista.

Sem ter uma personagem humana como o foco da obra, o próprio cortiço cumpre este papel: o lugar não só tem vida como também é vivo. Em diversas passagens o autor caracteriza o ambiente como se este respirasse, palpitasse, gemesse. O cortiço é descrito de forma humanizada enquanto seus personagens são animalizados, principalmente no sexo, que é descrito como uma cruza entre animais selvagens. Mas não só no sexo esses personagens ganham traços animais, sua vida cotidiana ganha esse mesmo tom, um bom exemplo disso é a cena final do suicídio de Bertoleza: uma facada no bucho, abrindo suas entranhas como os peixes que a quitandeira cozinhava, enquanto um peixe a observa com olhos humanos. A animalização do ser humano, junto com o determinismo, são as mais fortes características do naturalismo presentes na obra.

Para pensar acerca do determinismo, tomemos dois exemplos: primeiro a Pombinha. Menina jovem de dezoito anos que ainda não havia menstruado, o que lhe impedia contrair matrimônio com o noivo. Era uma das únicas pessoas letradas na estalagem, era limpa, inteligente, caridosa e considerada “a flor do cortiço”, seu comportamento não condizia com o ambiente que vivia, porém, nenhum indivíduo consegue fugir de sua sina nesta obra naturalista. Pombinha perde a virgindade com uma coquete, sua madrinha, e após esse episódio sua conduta muda, ela passa a pensar na inferioridade dos homens perante suas mulheres e jura nunca amar ao marido. Após casada passa a ter amantes, o marido a abandona e Pombinha vira prostituta no Rio de Janeiro, fazendo visitas periódicas a sua protegida no cortiço, uma menininha muito parecida com ela mesma naquela idade, fechando assim o ciclo vicioso do ambiente. Como segundo exemplo usaremos Jerônimo. Homem português, trabalhador, casado com Piedade, não bebe, tem poucos amigos e guarda todo seu dinheiro para voltar para Portugal como homem rico. Essa postura não se mantém após o português se apaixonar pela mulata brasileira, hiperssexualizada, Rita Baiana. Com essa paixão Jerônimo se “abrasileirou”: contrai os vícios da bebida, troca o fado Português pelo pagode, passa a tomar café e cachaça e esbanjar seu dinheiro, o meio corrompe totalmente o homem, que chega ao ponto de abandonar a esposa e filha para viver com a mulata.

O naturalismo funciona como uma crítica a tríade dos valores burgueses: família, casamento e igreja. Os casamentos e famílias no cortiço são facilmente dissolvidos, como no caso Jerônimo e Piedade ou então quando a personagem Rita Baiana faz troça (diversas vezes) sobre se casar e ter que servir homem como escrava. No caso da igreja, os personagens não se mostram fiéis católicos, não existem passagens que expiram devoção católica relevante. É no naturalismo que temos pela primeira retratadas na literatura as classes desfavorecidas, se antes tínhamos apenas advogados, médicos e damas da corte como personagens centrais (que aparentemente nunca precisavam comparecer ao trabalho), agora temos trabalhadores de pedreira, lavadeiras, quitandeiros e escravos. 

A questão de uma certa igualdade de gênero na obra também é um traço relevante, em “O Cortiço” não são apenas as mulheres sexualizadas, os homens também são descritos ressaltando sua sensualidade e corpos. Além da sexualização também entramos no terreno dos desejos sexuais, as mulheres, assim como os homens, possuem desejos e vão atrás de satisfazê-los, seduzem e são seduzidas.

A obra de Aluísio de Azevedo é de longe uma das mais interessantes da literatura brasileira, um livro no qual sempre algo está se desenvolvendo, um livro violento que segundo o narrador, trata de “larvas sensuais”. Com temas considerados tabus na sociedade fluminense do século XIX, sexo, desejo, violência e deturpação de valores burgueses, a obra era considerada de mal gosto, muito por retratar pessoas pobres em detrimento da classe alta. Embora tenha sido um fenômeno de vendas, foi proibida nos lares da burguesia, o que não impedia que fosse lida em segredo.

Para entender de naturalismo: O bom crioulo (Adolfo Caminha, 1895), A carne (Júlio Ribeiro, 1888), A normalista (Adolfo Caminha, 1893), Casa de pensão (Aluísio de Azevedo, 1876)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s