Cheiro de velho | Crônica

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Casa antiga, mesmo que já não seja mais habitada por nenhum idoso, sempre cheira a velho. Sempre o cheiro de bolinhas de tirar mofo, mesmo que ninguém mais as use, cheiro de quarto fechado, não importa o quanto se abra as janelas cedo pela manhã, um certo quê de morte. Porque é isso, ser idoso é um prelúdio para morte, logo, casa velha tem cheiro de morte.

A casa da minha mãe tem exatamente esse cheiro. Minha mãe mora em área rural, numa casa dos anos quarenta na qual viveu meu bisavô, bisavó e seus filhos. Meu bisavô morou lá até mais ou menos cinco anos atrás, quando ficou velho demais para morar tão distante de um hospital. A casa cheira a velho, embora nenhum idoso more lá há anos, embora minha mãe abra todas as janelas todos os dias, queime ervas, lave piso e teto toda semana; nada, o cheiro de velho, ou de morte, permanece.

A casa da mãe da gente é negócio engraçado: quanto mais passa o tempo e o tempo em que eu vivia com ela vai ficando cada vez mais para trás, mais eu me apego ao cheiro de velho, ao cheiro de morte que habita a casa na Glória. Acho que minha mãe está ficando velha.

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