Climax(2018) | Comentário

Dirigido por Gaspar Noé, o filme estreou em outubro de 2018 e trata da história de um grupo de dançarinos profissionais durante uma festa. Gostaria de ressaltar aqui dois pilares que acho fundamentais no filme: o absurdo e e a sensação de sinestesia.

A sinestesia

As atuações e movimentos de câmera fazem o espectador ver o filme com um espetáculo de dança, os movimentos dos atores são contínuos, são literalmente coreografados como passos de dança. Além dos movimentos coreografados, as emoções são retratadas de forma exagerada e dramática, ao estilo de um espetáculo de dança contemporânea. Durante a noite as situações começam a ficar estranhas até os personagens compreenderem que foram drogados por algum colega e a partir daí a situação sai totalmente de controle, e o absurdo atinge um climax que não te deixa respirar por bastante tempo.

O absurdo

As situações nas quais os personagens se envolvem escalonam de forma rápida culminando em catástrofes agravadas pela bad trip, como o momento em que Emmanuelle tranca o filho na caixa de luz do prédio para protegê-lo dos colegas alucinados. Vale ressaltar que o menino também bebeu a sangria batizada.

Sobre o elenco e as filmagens

O elenco é composto quase exclusivamente por dançarinos e não atores, além disso, o roteiro foi bastante livre, deixando muito espaço para improvisação de falas e movimentos. A filmagem foi feita de forma contínua por 15 dias de forma cronológica, ou seja, por 15 dias seguidos os dançarinos ficaram em imersos em seus personagens, filmando a história na ordem na qual vemos no filme.

A trama explicada caso você não tenha conseguido acompanhar: 

Selva é a primeira a perceber que algo estava errado e acusa alguém na festa de ter batizado a sangria feita por Emanuelle. A ex-dançarina é então acusada do feito, porém se defende alegando também ter bebido a sangria, logo pensam que quem batizou não bebeu. Tyler acusa Omar por saber que o colega não bebe, o grupo então o ataca violentamente e joga o dançarino para fora da festa, na neve. 

Nesse momento Emanuelle vê seu filho tomando a sangria e decide tranca-lo na caixa de luz do prédio para protegê-lo do caos.

Outra acusada é Lou, que por estar grávida também não bebeu, acontece que Mounia escuta essa história e a acusa de ter batizado a bebida, aí rola um cena pesada na qual Mounia chuta Lou no chão diversas vezes no estômago. A partir daí a situação só desce ladeira abaixo.

Lou desce para o salão principal no qual a festa está acontecendo, mas ao chegar lá começa a ser atacada pelos colegas que lhe fazem troça por estar grávida, a situação fica tão intensa que Lou da diversos socos no próprio estômago e se automutila na frente de todos sob gritos de “aborta” e “se mate”. 

O filme volta a focar em Selva que caminha pelo prédio totalmente desorientada até ouvir Emanuelle e o filho preso na caixa de luz. Emanuelle diz ter perdido a chave da porta.

Selva desce para o salão principal onde encontra David tomando uma surra de Tyler e seus amigos. Curiosamente Tyler chama David de “seu branco de merda” enquanto desenha de batom uma suástica na testa do colega desacordado. 

Quando a luz do prédio cai e luzes vermelhas de emergência acendem, provavelmente por um curto circuito, Emanuelle lembra de Tito preso na caixa de luz e corre até lá, enquanto Ivana leva Selva até o quarto onde fazem sexo, nesse momento David entra procurando por Selva. 

Gazelle, que estava na área destinada aos quartos, desce até o salão principal onde encontra uma algazarra de pessoas semi-nuas alucinadas dançando e transando. O irmão de Gazelle, Taylor, tenta fazer sexo com ela e todos alucinam no chão da pista de dança.

Na manhã seguinte os policiais invadem o local e encontram Pyche dançando, enquanto  todos estão desacordados pelos cantos. A cena corta para Emanuelle morta em clara evidência de suicídio em frente a caixa de energia. Vemos então uma das personagens, provavelmente Lou, caminhando descalça em direção a neve.

A cena final mostra Pyche sentada na cama pingando gotas de LSD nos olhos.

Candyman | Resenha

O livro escrito por Clive Barker e publicado no ano de 1987 tem como seu monstro Candyman, personagem icônico do terror eternizado no cinema pela interpretação de Tony Todd nos anos oitenta. A obra trata principalmente do potencial de uma lenda urbana. Barker, além de escritor, é cineasta, roteirista, ator, produtor de cinema e artista plástico, sendo ele, inclusive, o diretor de uma das melhor obras de terror do cinema e da literatura, Hellraiser (1987), obra adaptada do livro do próprio Barker.

Candyman tem um tom de romance policial/sobrenatural, algo na mesma linha de Ultimo Turno (2016) de Stephen King, o que agrega certa veracidade à história da pesquisadora universitária Helen, a qual vai até a Sector Street, palco das histórias sobre Candyman, em vias de fotografar os grafites e pichações feitos no conjunto habitacional decadente para sua monografia. A história adquire um tom policial quando Helen ouve histórias de assassinatos violentos de moradores do conjunto habitacional e decide investigar a veracidade dos fatos, o que irrita algumas pessoas da localidade.

Candyman pela editora Dark
Side

A beleza da obra está nas dúvidas que se formam na mente da protagonista: a falta de provas sobre os assassinatos começa a lhe provocar inquietações sobre o por que dos moradores inventarem tais histórias. O mesmo movimento que Helen faz ao tentar compreender as histórias contadas pelos locais é feito por nós, cidadãos, quando ouvimos histórias bizarras sobre cidades mal assombradas ou entidades que habitam cemitérios ou mausoléus, as quais nunca são vistas diretamente por nossos interlocutores, todos apenas “ouviram falar” de tais atrocidades, mas nunca chegamos a fonte. 

Barker vai a raiz do que forma e fortifica uma lenda urbana, de onde ela surge, como surge e quem a mantém viva através dos tempos e até mesmo porque ela se mantém viva em meio aos céticos e falta de provas concretas.

Cheiro de velho | Crônica

Casa antiga, mesmo que já não seja mais habitada por nenhum idoso, sempre cheira a velho. Sempre o cheiro de bolinhas de tirar mofo, mesmo que ninguém mais as use, cheiro de quarto fechado, não importa o quanto se abra as janelas cedo pela manhã, um certo quê de morte. Porque é isso, ser idoso é um prelúdio para morte, logo, casa velha tem cheiro de morte.

A casa da minha mãe tem exatamente esse cheiro. Minha mãe mora em área rural, numa casa dos anos quarenta na qual viveu meu bisavô, bisavó e seus filhos. Meu bisavô morou lá até mais ou menos cinco anos atrás, quando ficou velho demais para morar tão distante de um hospital. A casa cheira a velho, embora nenhum idoso more lá há anos, embora minha mãe abra todas as janelas todos os dias, queime ervas, lave piso e teto toda semana; nada, o cheiro de velho, ou de morte, permanece.

A casa da mãe da gente é negócio engraçado: quanto mais passa o tempo e o tempo em que eu vivia com ela vai ficando cada vez mais para trás, mais eu me apego ao cheiro de velho, ao cheiro de morte que habita a casa na Glória. Acho que minha mãe está ficando velha.

O cortiço, de Aluísio de Azevedo | Sangria.blog

Principal livro do Naturalismo, O Cortiço, escrito por Aluísio de Azevedo e publicado no ano de 1890, denuncia os horrores e explicita os prazeres da classe mais desfavorecida em um Rio de Janeiro que engatinhava no processo de abolição da escravatura. A obra foi escrita tomando por base as observações do autor acerca da sociedade fluminense pobre, quando as habitações populares – casas de pensão, e mais tarde, os cortiços – preocupavam o governo por crescer de forma desgovernada, barulhenta e mal vista.

Sem ter uma personagem humana como o foco da obra, o próprio cortiço cumpre este papel: o lugar não só tem vida como também é vivo. Em diversas passagens o autor caracteriza o ambiente como se este respirasse, palpitasse, gemesse. O cortiço é descrito de forma humanizada enquanto seus personagens são animalizados, principalmente no sexo, que é descrito como uma cruza entre animais selvagens. Mas não só no sexo esses personagens ganham traços animais, sua vida cotidiana ganha esse mesmo tom, um bom exemplo disso é a cena final do suicídio de Bertoleza: uma facada no bucho, abrindo suas entranhas como os peixes que a quitandeira cozinhava, enquanto um peixe a observa com olhos humanos. A animalização do ser humano, junto com o determinismo, são as mais fortes características do naturalismo presentes na obra.

Para pensar acerca do determinismo, tomemos dois exemplos: primeiro a Pombinha. Menina jovem de dezoito anos que ainda não havia menstruado, o que lhe impedia contrair matrimônio com o noivo. Era uma das únicas pessoas letradas na estalagem, era limpa, inteligente, caridosa e considerada “a flor do cortiço”, seu comportamento não condizia com o ambiente que vivia, porém, nenhum indivíduo consegue fugir de sua sina nesta obra naturalista. Pombinha perde a virgindade com uma coquete, sua madrinha, e após esse episódio sua conduta muda, ela passa a pensar na inferioridade dos homens perante suas mulheres e jura nunca amar ao marido. Após casada passa a ter amantes, o marido a abandona e Pombinha vira prostituta no Rio de Janeiro, fazendo visitas periódicas a sua protegida no cortiço, uma menininha muito parecida com ela mesma naquela idade, fechando assim o ciclo vicioso do ambiente. Como segundo exemplo usaremos Jerônimo. Homem português, trabalhador, casado com Piedade, não bebe, tem poucos amigos e guarda todo seu dinheiro para voltar para Portugal como homem rico. Essa postura não se mantém após o português se apaixonar pela mulata brasileira, hiperssexualizada, Rita Baiana. Com essa paixão Jerônimo se “abrasileirou”: contrai os vícios da bebida, troca o fado Português pelo pagode, passa a tomar café e cachaça e esbanjar seu dinheiro, o meio corrompe totalmente o homem, que chega ao ponto de abandonar a esposa e filha para viver com a mulata.

O naturalismo funciona como uma crítica a tríade dos valores burgueses: família, casamento e igreja. Os casamentos e famílias no cortiço são facilmente dissolvidos, como no caso Jerônimo e Piedade ou então quando a personagem Rita Baiana faz troça (diversas vezes) sobre se casar e ter que servir homem como escrava. No caso da igreja, os personagens não se mostram fiéis católicos, não existem passagens que expiram devoção católica relevante. É no naturalismo que temos pela primeira retratadas na literatura as classes desfavorecidas, se antes tínhamos apenas advogados, médicos e damas da corte como personagens centrais (que aparentemente nunca precisavam comparecer ao trabalho), agora temos trabalhadores de pedreira, lavadeiras, quitandeiros e escravos. 

A questão de uma certa igualdade de gênero na obra também é um traço relevante, em “O Cortiço” não são apenas as mulheres sexualizadas, os homens também são descritos ressaltando sua sensualidade e corpos. Além da sexualização também entramos no terreno dos desejos sexuais, as mulheres, assim como os homens, possuem desejos e vão atrás de satisfazê-los, seduzem e são seduzidas.

A obra de Aluísio de Azevedo é de longe uma das mais interessantes da literatura brasileira, um livro no qual sempre algo está se desenvolvendo, um livro violento que segundo o narrador, trata de “larvas sensuais”. Com temas considerados tabus na sociedade fluminense do século XIX, sexo, desejo, violência e deturpação de valores burgueses, a obra era considerada de mal gosto, muito por retratar pessoas pobres em detrimento da classe alta. Embora tenha sido um fenômeno de vendas, foi proibida nos lares da burguesia, o que não impedia que fosse lida em segredo.

Para entender de naturalismo: O bom crioulo (Adolfo Caminha, 1895), A carne (Júlio Ribeiro, 1888), A normalista (Adolfo Caminha, 1893), Casa de pensão (Aluísio de Azevedo, 1876)

Estação Carandiru

Estação Carandiru é o relato, em primeira pessoa, do médico oncologista e cientista Drauzio Varella, publicado em 1999 pela editora Companhia das Letras, que acompanha a rotina da Casa Prisional de São Paulo, localizada no bairro Carandiru na zona norte da cidade. A obra aborda os acontecimentos compreendidos entre os anos de 1986 e 1994, tempo em que o médico fez um trabalho voluntário de prevenção à AIDS na referida casa de reclusão, onde tomamos conhecimento sobre questões tanto estruturais da instituição, quanto de organizações sociais internas.

Embora o tema seja sensível e passível de muitas críticas dos órgãos de direitos humanos, o autor não teve como objetivo fazer uma crítica à antiga direção da Casa, focando apenas em relatar o que por lá se passava, sem julgar servidores ou presos. De narrativa leve, oscilando entre passagens cômicas e tristes (com um final angustiante), somos apresentados aos internos e suas lutas diárias para a sobrevivência dentro de um ambiente tão hostil quanto a maior casa de detenção da América Latina. O leitor toma conhecimento dos sistemas que regem a boa convivência entre os internos: leis rígidas impostas por eles mesmos, onde caguetagem, desrespeito às visitas e má higiene pessoal e do xadrez podem ser passíveis de morte.


A linguagem usada por Drauzio é surpreendentemente simples, é acessível ao ponto dos próprios presos (ou ex-presos) poderem ler e compreender a obra, principalmente por ter a narrativa linear, uso de palavras simples e usar o vocabulário típico da Casa, dando um ar muito característico ao livro.

A leitura é rápida e dinâmica, sempre algo está acontecendo, nunca nos encontramos estáticos ou entediados durante o percurso: histórias pessoais dos internos, as travestis e suas vidas difíceis entre os homens, as epidemias de AIDS e crack que tomaram a casa em certa altura, as dificuldades que a equipe médica enfrentava, a falta de recursos, o jogo de cintura dos carcereiros, a infraestrutura decadente. Com um final de tirar o folêgo e causar  revolta no leitor, Drauzio conta, a partir dos relatos dos internos, sobre a chacina ocorrida dentro do pavilhão 9 após a rendição dos rebelados.