A ilusão espetacular – uma teoria da fotografia (Arlindo Machado) | Sangria.blog

A ilusão espetacular foi o primeiro livro que li em que o objetivo não é apenas ilustrar os fundamentos da fotografia e demonstrar o que cada parte da câmera representa para a composição da foto. Em outras palavras, ele não é um livro técnico; como seu título já antecipa. Arlindo Machado apresenta o conceito de ideologia, e como cada foto, como qualquer outra produção artística material, carrega e transmite para o mundo a sua própria visão.

O autor fala muito sobre a luta de classes e como podemos analisar a representação do mundo em quadros fotográficos através desse modo de pensar a história. Toda fotografia foi pensada e arquitetada para ser transmitida ao espectador de determinada forma; quando uma imagem é analisada, ela na verdade foi previamente escolhida pelo olho de quem a tirou. Levando isso em consideração, todo registro fotográfico apresenta uma ideologia, uma forma de pensar o mundo. Por exemplo, ao fotografar os trabalhadores de uma fábrica no século XIX na Inglaterra, o fotógrafo pode escolher o ângulo do ponto de visão, a iluminação do seu referente e as sombras que permeiam a foto, se os trabalhadores estarão ou não olhando para a objetiva, etc. E todas as especificidades, no final, garantem à fotografia uma visão de mundo, um modo de ver as coisas, e sobretudo, coloca o referente no meio da luta de classes, em uma sociedade que obviamente tem seus padrões modificados constantemente.

Toda fotografia é um retrato da realidade, e apenas isso; um retângulo que corta o mundo e decide que aquele momento exato, com as condições que permeiam o intervalo em que o obturador ficará aberto, é o extrato da realidade que o fotógrafo quer registrar no seu rolo de filme ou cartão de memória. Machado também discorre sobre os fundamentos que guiam não só a fotografia, mas todas as artes visuais: luz e sombra, composição, perspectiva, movimento, etc. Fica explícito que o erro, ou seja, quando o resultado não segue à risca alguns fundamentos básicos da fotografia, pode na verdade ser o maior trunfo de determinada imagem. Desconstruir o significado de erro é essencial para a produção artística.

O livro é perfeito para quem gosta de fotografia, mas também é válido para quem se interessa por filosofia, sociologia, cinema, jornalismo, história e artes visuais.

A hora do lobisomem, de Stephen King | Sangria.blog

A hora do lobisomem é a opção perfeita para uma leitura de um dia só; sua trama é desenvolvida ao longo de um ano na cidade de Tarker’s Mill, no Maine (como várias outras estórias do autor). Cada capítulo é dedicado a narrativa dos acontecimentos da noite de lua cheia de cada mês, quando um habitante desconhecido toma a forma de um lobisomem e ataca brutal e rapidamente a população da cidade. A trama é simples e sem floreios, os personagens na maioria das vezes sobrevivem a apenas duas páginas, mas o clima de tensão criado pela aparição do lobisomem é digno de qualquer outro livro do King. A hora do lobisomem é estruturado como um livro de contos fix up (pequenos contos que quando lidos em sequência formam um romance).

O ex fuzileiro naval que, após seu serviço militar, decidiu dedicar seus dias a cuidar de uma máquina de café foi a primeira pessoa em Tarker’s Mill a presenciar a transformação do lobisomem – não sobreviveu para compartilhar a identidade da fera às autoridades. O chefe do departamento de polícia da pacata cidadezinha do Maine teve o manto da descrença tirado dos seus olhos pela própria fera, quando ela ataca o oficial dentro de sua viatura e desfigura totalmente sua face. Depois dessa lua cheia todos na cidade começaram a acreditar que os assassinatos talvez não estavam sendo planejados por uma criatura humana. A revolta pelo cancelamento dos fogos de 4 de julho fez com que Marty ficasse de frente com a fera do lado de fora de sua casa, mesmo quando as autoridades já haviam estabelecido um toque de recolher. Quando o barulho proveniente de conversas acaloradas na sala cessou, Marty controlou sua cadeira de rodas elétrica até a varanda e decidiu fazer o seu próprio 4 de julho. O barulho da pólvora estourando foi o que despertou o lobisomem e indicou o local onde sua próxima vítima estava, mas também foram os fogos de artifício que salvaram a vida do garoto e dilaceraram o rosto do lobisomem. Com a face desfigurada, era fácil perceber quem em Tarker’s Mill estava passando por transformações a cada lua cheia.

Como não é novidade para os leitores do autor, existe uma adaptação para o cinema chamada “Silver Bullet”; com a mesma estética de vários outros filmes de terror da década de oitenta adaptados de livros do King, e com um título muito mais interessante que a obra original.

Algumas ilustrações da edição do selo Suma de “A hora do lobisomem”

As parceiras, de Lya Luft – opinião | Sangria.blog

A narrativa do romance de estréia de Lya Luft – as parceiras – apresenta um grande número de episódios melancólicos que rondam a vida da família de Anelise, personagem principal do romance intimista da autora gaúcha. Ao invés de escrever sobre a vida cotidiana e acontecimentos corriqueiros, a autora busca explorar o que há de mais lúgubre e desesperador na existência humana: o medo. Anelise é uma mulher repleta de medos que decide passar uma semana no chalé da família na beira da praia; acompanhada pelo seu fiel São Bernardo e pela empregada Nazaré, Anelise relembra dos medos da vida, e traça um paralelo entre a pessoa que é hoje e as expectativas que tinha em relação ao seu futuro. A maior apreensão da personagem possuía raízes em sua família, composta essencialmente por mulheres com vidas tristes e desfechos desafortunados.

Talvez a melancolia da família tenha começado com a vida enclausurada e sofrida de sua avó Catarina; casada desde os quatorze anos com um marido muito mais velho, e que lhe submetia à situações não consentidas por ambas as partes. Catarina deu à luz a três mulheres: Beata, que usou a Igreja como o seu ópio; Dora, pintora, e segundo Anelise, a única mulher da família que conseguiu cultivar uma vida tranquila e feliz; Sibila, portadora de síndrome de Down e dependente de suas irmãs; e por fim Norma, mãe de Anelise. O fim da história de Norma chega muito cedo no livro, na forma de um acidente de avião que acaba com a vida dos dois pais de Anelise.

Além do medo e da solidão, a morte foi sempre um fator presente no crescimento e desenvolvimento da personagem; não apenas a morte dos seus pais, mas também da melhor amiga de infância, que é engolida pelos rochedos e pelas ondas intensas da praia. Para Anelise, todas as pessoas ao seu redor pareciam possuir dois possíveis destinos: a tristeza ou a morte. Foi só quando começou a manter contato regular com seu primo Otávio, no casarão, que começou a ver a vida através de outras lentes. Suas primeiras descobertas do mundo sexual foram concretizadas com o filho de sua tia Dora, um garoto talentoso e que expressava todo seu esplendor no piano. Mas mesmo Otávio parece deixar Anelise de lado com o passar dos anos; decide ir para a Europa e acaba voltando noivo de uma mulher que conheceu por lá.

A vida adulta de Anelise foi marcada por diversas tentativas de ter um filho com o seu marido Thiago. Após diversas frustrações e episódios traumáticos para o casal, ela finalmente consegue sustentar uma gravidez até os últimos meses de gestação. No dia do parto, a criança – Lalo – nasce com uma doença degenerativa que lhe garante uma sobrevida de apenas dois anos. A partir do dia do nascimento de Lalo, Anelise vive de forma ainda mais lúgubre e sombria, e sua rotina é baseada na espera da morte do filho que vive em estado vegetativo. A única gravidez que havia vingado não reage ao mundo externo, suas expectativas de mãe não respondidas e um marido que já não lhe dirige mais um olhar apaixonado são as barreiras da felicidade da vida de Anelise. Depois de uma vida de decepções e tristezas, ela pensa que talvez seu destino realmente seja ficar enclausurada no casarão da família na beira da praia, e nem ao menos tentar combater a solidão daquele lugar.

Os capítulos do livro são divididos conforme os dias da semana que Anelise passa na casa da sua família lembrando de tudo que foi vivido até o presente momento. As parceiras é um livro marcante, forte, com uma voz única e que não peca em mostrar o lado mais sombrio da mente humana.

Precisamos falar sobre o Kevin

Discutir a natureza humana persiste em ser um dos focos de conteúdo da literatura no decorrer das décadas; de certa forma todos os diálogos e cenas que expressam um sentimento estão rondando pessoas e suas motivações. Todo indivíduo busca algo quando realiza determinada ação – negar essa afirmação é negar a sua existência e os motivos criados para preenchê-la.

Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que incomoda. Sua narrativa lúgubre e que aborda pensamentos íntimos da personagem Eva é contada através de cartas escritas para o seu marido Franklin; o que caracteriza o livro como um romance epistolar (contado através de cartas que expressam os anseios e pensamentos de uma personagem em primeira pessoa). Se os seres humanos precisam de motivações para continuar existindo, qual seria o norte a guiar um indivíduo que não enxerga a beleza em nenhum ato que busca a felicidade? Kevin Khatchadourian, da infância à adolescência, nunca ostentou uma expressão verdadeira de prazer – a aversão à qualquer coisa que gerasse alegria e calor humano começou logo nos primeiros suspiros de vida de KK, quando a recusa de mamar no peito de sua mãe a privou da reciprocidade que qualquer mulher busca no ato de amamentar.

Fundadora da A wing & a prayer, Eva Khatchadourian é de descendência romena, nova iorquina por opção e totalmente dedicada à sua vida na sua agência de guias de viagens. Seu marido Franklin tem orgulho de ser americano, gosta de enfatizar que a liberdade dos Estados Unidos não pode ser encontrada em nenhum outro país que Eva já tenha visitado durante a escrita de seus guias para mochileiros; Eva e Franklin são opostos: democrata e republicano, multicultural e cegamente patriota; ela acha que a vida dos dois está completa pelo fato de eles terem um ao outro, enquanto ele pensa que apenas um filho irá conseguir preencher seu vazio. Ou melhor dizendo, a ambição de Franklin para seguir em frente era ter um filho. Eva sempre notava o jeito que a feição de Franklin mudava quando brincava com as filhas de amigos do casal, o que gerava um sentimento de prepotência na relação dos dois – Eva não entendia como não conseguia preencher aquele vazio que para Franklin só seria completo com um filho. O amor incondicional por Franklin pesa mais que a aversão a ter um filho, e assim Kevin nasce em uma nova casa fora de Nova York, grande, moderna e que abrigava dois adultos que não compartilhavam inicialmente da ideia de ter um primogênito.

Foi quando Eva ainda estava se acostumando com a ideia de trabalhar em casa pela AW&AP que Kevin começou a demonstrar certos traços que não eram comuns em crianças de desenvolvimento considerado normal. Sua mãe tinha reunido todos os mapas de metrôs, de linhas de trem e de pequenos vilarejos da Europa para montar uma decoração em um dos quartos que ela considerava tolerável trabalhar, dentre todos os outros cômodos daquela casa imensa que Eva detestava. Depois de ficar meses dedicando todo o seu tempo a um filho que não demonstrava atenção e afeto pela sua figura materna, Eva tinha decidido que montar um quarto que fosse exatamente do jeito que ela queria era seu objetivo maior, mesmo naquela casa repleta de brinquedos dos quais Kevin não tinha interesse algum. Voltar a trabalhar escrevendo seus roteiros de viagens, e quiçá até voltar a viajar em uma frequência muito menor do que quando não era mãe, compunham a check list que Eva queria muito preencher para voltar a ser a pessoa que era. Foi durante esse período de transição que Kevin talvez tenha entendido a única coisa que lhe dava uma dose de prazer: destruir qualquer objeto ou sonho que garantisse alegria às pessoas ao seu redor. Quando sua mãe não estava mais no quarto, que naquele momento já estava exatamente do jeito que Eva queria, Kevin destruiu todos os mapas com uma arma de água que havia sido carregada com tinta preta minutos antes. Destruir aquilo que dava alegria à existência da sua mãe, mas não apenas da sua mãe, pareceu ser o único motivo verdadeiramente importante para Kevin seguir com a sua vida.

Quando a maternidade se torna uma escolha para Eva, ela decide ter mais um filho com Franklin; sua motivação era movida com o objetivo de provar que ela estava apta a ser mãe, e que na verdade todos os problemas pelos quais a família estava passando eram ocasionados por Kevin. Logo no nascimento, Celia, a mais nova integrante da família Khatchadourian, já demonstrava ser totalmente diferente do irmão. Sempre com um olhar interessado e gracioso, a menina era meiga e doce de uma forma que Eva não estava acostumada. Seu medo de que Franklin trataria a criança de uma forma diferente da qual tratava Kevin foi se tornando cada vez mais distante com a figura presente que ele se tornou na vida de Celia.

Com os relatos de Eva, o leitor vai se acostumando com o final dessa trama trágica; e a cada episódio sombrio fica mais fácil de entender como a quinta-feira fatídica ocorreu. Um massacres quase nunca apresenta uma explicação racional, ainda mais quando ocorrem no local em que adolescentes e crianças deveriam se sentir seguros e livres. As motivações de Kevin para prender um grupo de alunos no ginásio e alvejá-los com flechas não são totalmente explicadas – afinal, nem mesmo Kevin sabia o motivo de ter feito aquilo. A personalidade do garoto enquanto adolescente era totalmente contrária àquela que adultos normalmente esperam encontrar em jovens na puberdade. Kevin não tinha interesses, não possuía amigos de verdade, seu quarto era minimalista e monocromático demais e durante toda a trama o leitor percebe padrões mórbidos na vida familiar dos Khatchadourian.

Precisamos falar sobre o Kevin é um ótimo livro; sua escrita em forma de cartas, o que caracteriza um romance epistolar, foi um ótima escolha da autora Lionel Shriver para transmitir toda a carga emocional de uma vida completa de decepções e tragédias. Fica recomendado aqui o filme homônimo da diretora Lynne Ramsay, que apresenta fotografia impactante e uma paleta vermelha cor sangue.