O homem-ou-peixe | Conto

Novembro, 2019.

– Tu já tinha visto isso antes, doutor? – minha mulher perguntava preocupada para o médico.

– Em 82 ou 83 um homem veio até meu consultório – respondeu, como se fazendo um esforço para lembrar, enquanto cutucava minha pele escamada -, afirmava que estava se transformando em uma aranha. Foi uma única consulta. Depois soube que foi para Porto Alegre e não tive mais notícias.

Tudo me parecia uma grande bobagem, meu trabalho não iria esperar até que eu resolvesse um probleminha de saúde. Eu estava deixando de ganhar o dinheiro que poderia nos deixar alimentados por mais um mês. Impaciente com o pensamento, fui me levantando.

– Veja isso, doutor. Se eu não tivesse insistido nisso, ele não teria vindo até aqui sozinho. Acha que não é nada de mais.

Irritado, insisti para que voltássemos para casa. Precisava trabalhar mais horas amanhã na fábrica para compensar.

– Querido, você está se transformando em um peixe – minha mulher falava com um tom de irritação e tristeza, não conseguia definir ao certo.

Fingi que não ouvi e fui direto para a cama. Virar um peixe, como pode? Se eu virasse um peixe, meus problemas estariam resolvidos. Entretanto, meus problemas pioraram. Foram três noites sem conseguir dormir de costas. Meus ossos saíam pelas minhas costas, colados pela pele, formando um leque.

– Não bastassem as faltas, agora tu me aparece com nadadeiras? – meu chefe gritava na frente de todos, como que para me envergonhar – Como vai fazer teu trabalho sem os braços? Te dou uma semana pra acabar com essa brincadeira e voltar a ser homem.

Mas eu ainda era um homem. Só estava passando por um probleminha de saúde. Provavelmente foi algo que comi. Talvez a prefeitura não fizesse nada para limpar a cidade e a gente pegasse essas coisas do chão. Ou do ar.

Então, passei a ter problemas para respirar. É culpa daquela maldita fábrica, onde eu respiro pó o dia inteiro. É culpa daquele maldito chefe que caga pra gente. Toda semana alguém é substituído igual peça de encaixe.

Minhas ausências aumentaram quando passei a não conseguir caminhar direito mais. Minhas pernas estavam se colando, ou algo do tipo. Mas eu sabia que isso não podia acontecer com um homem. Eu era o único que parecia saber disso. Todos os outros eram burros. Talvez alguns eram aranhas também.

Minha mulher foi embora dizendo que não existe nenhuma forma de relacionar com um peixe. Mas eu sabia que ainda era um homem. Talvez ela só quis fugir com alguém que a amasse como um cavalo.

Depois disso a notícia já se espalhara por toda cidade. As pessoas estavam ficando loucas. Deixavam seus instintos animais florescerem. Como não conseguia andar direito, as pessoas invadiam minha casa para me ver. Ver o homem-peixe na banheira, diziam. Mas eu ainda era um homem e ainda tinha meus direitos e minha propriedade. Até que levaram minha casa.

– Um peixe não pode morar em uma casa! Ele precisa ser levado para um aquário – diziam meus inimigos. Era uma ONG de direitos animais que havia chegado na cidade, intrigados pela minha história.

– Um homem não pode ser tirado de sua casa, sem mais nem menos! Ele tem seus direitos – dizia outro grupo que se proclamava defensor dos direitos humanos. Eu humano ainda?

Os jornais invadiram a cidade, aguardando por minha carcaça podre como abutres. Sempre à espreita.

Em uma noite tranquila, fui até a ponte que funcionava de entrada para a cidade. Um grupo de jovens passou de carro e me viu. Agiam como serpentes, quietas, observando, prontos para dar o bote. Temi o que pudessem fazer, já que eu não tinha mais condições de me defender.

O grupo passou reto e após poucos minutos eu vi uma multidão, como uma manada, vindo na minha direção. Quase me alcançavam quando atingi a borda da ponte. Um rio passava ali por baixo. Alguns gritavam para eu não fazer isso, que eu iria morrer. Outros falavam que eu deveria pular, pois só sobreviveria na água. 

Uma voz, grave, inconfundível, se destacava na multidão. Meu chefe gritava – pare com essa brincadeira de querer ser peixe, você precisa trabalhar amanhã! Eu não sabia mais se virava peixe. Mas sabia que eu não queria mais viver como homem.

A ilusão espetacular – uma teoria da fotografia (Arlindo Machado) | Sangria.blog

A ilusão espetacular foi o primeiro livro que li em que o objetivo não é apenas ilustrar os fundamentos da fotografia e demonstrar o que cada parte da câmera representa para a composição da foto. Em outras palavras, ele não é um livro técnico; como seu título já antecipa. Arlindo Machado apresenta o conceito de ideologia, e como cada foto, como qualquer outra produção artística material, carrega e transmite para o mundo a sua própria visão.

O autor fala muito sobre a luta de classes e como podemos analisar a representação do mundo em quadros fotográficos através desse modo de pensar a história. Toda fotografia foi pensada e arquitetada para ser transmitida ao espectador de determinada forma; quando uma imagem é analisada, ela na verdade foi previamente escolhida pelo olho de quem a tirou. Levando isso em consideração, todo registro fotográfico apresenta uma ideologia, uma forma de pensar o mundo. Por exemplo, ao fotografar os trabalhadores de uma fábrica no século XIX na Inglaterra, o fotógrafo pode escolher o ângulo do ponto de visão, a iluminação do seu referente e as sombras que permeiam a foto, se os trabalhadores estarão ou não olhando para a objetiva, etc. E todas as especificidades, no final, garantem à fotografia uma visão de mundo, um modo de ver as coisas, e sobretudo, coloca o referente no meio da luta de classes, em uma sociedade que obviamente tem seus padrões modificados constantemente.

Toda fotografia é um retrato da realidade, e apenas isso; um retângulo que corta o mundo e decide que aquele momento exato, com as condições que permeiam o intervalo em que o obturador ficará aberto, é o extrato da realidade que o fotógrafo quer registrar no seu rolo de filme ou cartão de memória. Machado também discorre sobre os fundamentos que guiam não só a fotografia, mas todas as artes visuais: luz e sombra, composição, perspectiva, movimento, etc. Fica explícito que o erro, ou seja, quando o resultado não segue à risca alguns fundamentos básicos da fotografia, pode na verdade ser o maior trunfo de determinada imagem. Desconstruir o significado de erro é essencial para a produção artística.

O livro é perfeito para quem gosta de fotografia, mas também é válido para quem se interessa por filosofia, sociologia, cinema, jornalismo, história e artes visuais.

O cortiço, de Aluísio de Azevedo | Sangria.blog

Principal livro do Naturalismo, O Cortiço, escrito por Aluísio de Azevedo e publicado no ano de 1890, denuncia os horrores e explicita os prazeres da classe mais desfavorecida em um Rio de Janeiro que engatinhava no processo de abolição da escravatura. A obra foi escrita tomando por base as observações do autor acerca da sociedade fluminense pobre, quando as habitações populares – casas de pensão, e mais tarde, os cortiços – preocupavam o governo por crescer de forma desgovernada, barulhenta e mal vista.

Sem ter uma personagem humana como o foco da obra, o próprio cortiço cumpre este papel: o lugar não só tem vida como também é vivo. Em diversas passagens o autor caracteriza o ambiente como se este respirasse, palpitasse, gemesse. O cortiço é descrito de forma humanizada enquanto seus personagens são animalizados, principalmente no sexo, que é descrito como uma cruza entre animais selvagens. Mas não só no sexo esses personagens ganham traços animais, sua vida cotidiana ganha esse mesmo tom, um bom exemplo disso é a cena final do suicídio de Bertoleza: uma facada no bucho, abrindo suas entranhas como os peixes que a quitandeira cozinhava, enquanto um peixe a observa com olhos humanos. A animalização do ser humano, junto com o determinismo, são as mais fortes características do naturalismo presentes na obra.

Para pensar acerca do determinismo, tomemos dois exemplos: primeiro a Pombinha. Menina jovem de dezoito anos que ainda não havia menstruado, o que lhe impedia contrair matrimônio com o noivo. Era uma das únicas pessoas letradas na estalagem, era limpa, inteligente, caridosa e considerada “a flor do cortiço”, seu comportamento não condizia com o ambiente que vivia, porém, nenhum indivíduo consegue fugir de sua sina nesta obra naturalista. Pombinha perde a virgindade com uma coquete, sua madrinha, e após esse episódio sua conduta muda, ela passa a pensar na inferioridade dos homens perante suas mulheres e jura nunca amar ao marido. Após casada passa a ter amantes, o marido a abandona e Pombinha vira prostituta no Rio de Janeiro, fazendo visitas periódicas a sua protegida no cortiço, uma menininha muito parecida com ela mesma naquela idade, fechando assim o ciclo vicioso do ambiente. Como segundo exemplo usaremos Jerônimo. Homem português, trabalhador, casado com Piedade, não bebe, tem poucos amigos e guarda todo seu dinheiro para voltar para Portugal como homem rico. Essa postura não se mantém após o português se apaixonar pela mulata brasileira, hiperssexualizada, Rita Baiana. Com essa paixão Jerônimo se “abrasileirou”: contrai os vícios da bebida, troca o fado Português pelo pagode, passa a tomar café e cachaça e esbanjar seu dinheiro, o meio corrompe totalmente o homem, que chega ao ponto de abandonar a esposa e filha para viver com a mulata.

O naturalismo funciona como uma crítica a tríade dos valores burgueses: família, casamento e igreja. Os casamentos e famílias no cortiço são facilmente dissolvidos, como no caso Jerônimo e Piedade ou então quando a personagem Rita Baiana faz troça (diversas vezes) sobre se casar e ter que servir homem como escrava. No caso da igreja, os personagens não se mostram fiéis católicos, não existem passagens que expiram devoção católica relevante. É no naturalismo que temos pela primeira retratadas na literatura as classes desfavorecidas, se antes tínhamos apenas advogados, médicos e damas da corte como personagens centrais (que aparentemente nunca precisavam comparecer ao trabalho), agora temos trabalhadores de pedreira, lavadeiras, quitandeiros e escravos. 

A questão de uma certa igualdade de gênero na obra também é um traço relevante, em “O Cortiço” não são apenas as mulheres sexualizadas, os homens também são descritos ressaltando sua sensualidade e corpos. Além da sexualização também entramos no terreno dos desejos sexuais, as mulheres, assim como os homens, possuem desejos e vão atrás de satisfazê-los, seduzem e são seduzidas.

A obra de Aluísio de Azevedo é de longe uma das mais interessantes da literatura brasileira, um livro no qual sempre algo está se desenvolvendo, um livro violento que segundo o narrador, trata de “larvas sensuais”. Com temas considerados tabus na sociedade fluminense do século XIX, sexo, desejo, violência e deturpação de valores burgueses, a obra era considerada de mal gosto, muito por retratar pessoas pobres em detrimento da classe alta. Embora tenha sido um fenômeno de vendas, foi proibida nos lares da burguesia, o que não impedia que fosse lida em segredo.

Para entender de naturalismo: O bom crioulo (Adolfo Caminha, 1895), A carne (Júlio Ribeiro, 1888), A normalista (Adolfo Caminha, 1893), Casa de pensão (Aluísio de Azevedo, 1876)

As parceiras, de Lya Luft – opinião | Sangria.blog

A narrativa do romance de estréia de Lya Luft – as parceiras – apresenta um grande número de episódios melancólicos que rondam a vida da família de Anelise, personagem principal do romance intimista da autora gaúcha. Ao invés de escrever sobre a vida cotidiana e acontecimentos corriqueiros, a autora busca explorar o que há de mais lúgubre e desesperador na existência humana: o medo. Anelise é uma mulher repleta de medos que decide passar uma semana no chalé da família na beira da praia; acompanhada pelo seu fiel São Bernardo e pela empregada Nazaré, Anelise relembra dos medos da vida, e traça um paralelo entre a pessoa que é hoje e as expectativas que tinha em relação ao seu futuro. A maior apreensão da personagem possuía raízes em sua família, composta essencialmente por mulheres com vidas tristes e desfechos desafortunados.

Talvez a melancolia da família tenha começado com a vida enclausurada e sofrida de sua avó Catarina; casada desde os quatorze anos com um marido muito mais velho, e que lhe submetia à situações não consentidas por ambas as partes. Catarina deu à luz a três mulheres: Beata, que usou a Igreja como o seu ópio; Dora, pintora, e segundo Anelise, a única mulher da família que conseguiu cultivar uma vida tranquila e feliz; Sibila, portadora de síndrome de Down e dependente de suas irmãs; e por fim Norma, mãe de Anelise. O fim da história de Norma chega muito cedo no livro, na forma de um acidente de avião que acaba com a vida dos dois pais de Anelise.

Além do medo e da solidão, a morte foi sempre um fator presente no crescimento e desenvolvimento da personagem; não apenas a morte dos seus pais, mas também da melhor amiga de infância, que é engolida pelos rochedos e pelas ondas intensas da praia. Para Anelise, todas as pessoas ao seu redor pareciam possuir dois possíveis destinos: a tristeza ou a morte. Foi só quando começou a manter contato regular com seu primo Otávio, no casarão, que começou a ver a vida através de outras lentes. Suas primeiras descobertas do mundo sexual foram concretizadas com o filho de sua tia Dora, um garoto talentoso e que expressava todo seu esplendor no piano. Mas mesmo Otávio parece deixar Anelise de lado com o passar dos anos; decide ir para a Europa e acaba voltando noivo de uma mulher que conheceu por lá.

A vida adulta de Anelise foi marcada por diversas tentativas de ter um filho com o seu marido Thiago. Após diversas frustrações e episódios traumáticos para o casal, ela finalmente consegue sustentar uma gravidez até os últimos meses de gestação. No dia do parto, a criança – Lalo – nasce com uma doença degenerativa que lhe garante uma sobrevida de apenas dois anos. A partir do dia do nascimento de Lalo, Anelise vive de forma ainda mais lúgubre e sombria, e sua rotina é baseada na espera da morte do filho que vive em estado vegetativo. A única gravidez que havia vingado não reage ao mundo externo, suas expectativas de mãe não respondidas e um marido que já não lhe dirige mais um olhar apaixonado são as barreiras da felicidade da vida de Anelise. Depois de uma vida de decepções e tristezas, ela pensa que talvez seu destino realmente seja ficar enclausurada no casarão da família na beira da praia, e nem ao menos tentar combater a solidão daquele lugar.

Os capítulos do livro são divididos conforme os dias da semana que Anelise passa na casa da sua família lembrando de tudo que foi vivido até o presente momento. As parceiras é um livro marcante, forte, com uma voz única e que não peca em mostrar o lado mais sombrio da mente humana.

Estação Carandiru

Estação Carandiru é o relato, em primeira pessoa, do médico oncologista e cientista Drauzio Varella, publicado em 1999 pela editora Companhia das Letras, que acompanha a rotina da Casa Prisional de São Paulo, localizada no bairro Carandiru na zona norte da cidade. A obra aborda os acontecimentos compreendidos entre os anos de 1986 e 1994, tempo em que o médico fez um trabalho voluntário de prevenção à AIDS na referida casa de reclusão, onde tomamos conhecimento sobre questões tanto estruturais da instituição, quanto de organizações sociais internas.

Embora o tema seja sensível e passível de muitas críticas dos órgãos de direitos humanos, o autor não teve como objetivo fazer uma crítica à antiga direção da Casa, focando apenas em relatar o que por lá se passava, sem julgar servidores ou presos. De narrativa leve, oscilando entre passagens cômicas e tristes (com um final angustiante), somos apresentados aos internos e suas lutas diárias para a sobrevivência dentro de um ambiente tão hostil quanto a maior casa de detenção da América Latina. O leitor toma conhecimento dos sistemas que regem a boa convivência entre os internos: leis rígidas impostas por eles mesmos, onde caguetagem, desrespeito às visitas e má higiene pessoal e do xadrez podem ser passíveis de morte.


A linguagem usada por Drauzio é surpreendentemente simples, é acessível ao ponto dos próprios presos (ou ex-presos) poderem ler e compreender a obra, principalmente por ter a narrativa linear, uso de palavras simples e usar o vocabulário típico da Casa, dando um ar muito característico ao livro.

A leitura é rápida e dinâmica, sempre algo está acontecendo, nunca nos encontramos estáticos ou entediados durante o percurso: histórias pessoais dos internos, as travestis e suas vidas difíceis entre os homens, as epidemias de AIDS e crack que tomaram a casa em certa altura, as dificuldades que a equipe médica enfrentava, a falta de recursos, o jogo de cintura dos carcereiros, a infraestrutura decadente. Com um final de tirar o folêgo e causar  revolta no leitor, Drauzio conta, a partir dos relatos dos internos, sobre a chacina ocorrida dentro do pavilhão 9 após a rendição dos rebelados. 

Precisamos falar sobre o Kevin

Discutir a natureza humana persiste em ser um dos focos de conteúdo da literatura no decorrer das décadas; de certa forma todos os diálogos e cenas que expressam um sentimento estão rondando pessoas e suas motivações. Todo indivíduo busca algo quando realiza determinada ação – negar essa afirmação é negar a sua existência e os motivos criados para preenchê-la.

Precisamos falar sobre o Kevin é um livro que incomoda. Sua narrativa lúgubre e que aborda pensamentos íntimos da personagem Eva é contada através de cartas escritas para o seu marido Franklin; o que caracteriza o livro como um romance epistolar (contado através de cartas que expressam os anseios e pensamentos de uma personagem em primeira pessoa). Se os seres humanos precisam de motivações para continuar existindo, qual seria o norte a guiar um indivíduo que não enxerga a beleza em nenhum ato que busca a felicidade? Kevin Khatchadourian, da infância à adolescência, nunca ostentou uma expressão verdadeira de prazer – a aversão à qualquer coisa que gerasse alegria e calor humano começou logo nos primeiros suspiros de vida de KK, quando a recusa de mamar no peito de sua mãe a privou da reciprocidade que qualquer mulher busca no ato de amamentar.

Fundadora da A wing & a prayer, Eva Khatchadourian é de descendência romena, nova iorquina por opção e totalmente dedicada à sua vida na sua agência de guias de viagens. Seu marido Franklin tem orgulho de ser americano, gosta de enfatizar que a liberdade dos Estados Unidos não pode ser encontrada em nenhum outro país que Eva já tenha visitado durante a escrita de seus guias para mochileiros; Eva e Franklin são opostos: democrata e republicano, multicultural e cegamente patriota; ela acha que a vida dos dois está completa pelo fato de eles terem um ao outro, enquanto ele pensa que apenas um filho irá conseguir preencher seu vazio. Ou melhor dizendo, a ambição de Franklin para seguir em frente era ter um filho. Eva sempre notava o jeito que a feição de Franklin mudava quando brincava com as filhas de amigos do casal, o que gerava um sentimento de prepotência na relação dos dois – Eva não entendia como não conseguia preencher aquele vazio que para Franklin só seria completo com um filho. O amor incondicional por Franklin pesa mais que a aversão a ter um filho, e assim Kevin nasce em uma nova casa fora de Nova York, grande, moderna e que abrigava dois adultos que não compartilhavam inicialmente da ideia de ter um primogênito.

Foi quando Eva ainda estava se acostumando com a ideia de trabalhar em casa pela AW&AP que Kevin começou a demonstrar certos traços que não eram comuns em crianças de desenvolvimento considerado normal. Sua mãe tinha reunido todos os mapas de metrôs, de linhas de trem e de pequenos vilarejos da Europa para montar uma decoração em um dos quartos que ela considerava tolerável trabalhar, dentre todos os outros cômodos daquela casa imensa que Eva detestava. Depois de ficar meses dedicando todo o seu tempo a um filho que não demonstrava atenção e afeto pela sua figura materna, Eva tinha decidido que montar um quarto que fosse exatamente do jeito que ela queria era seu objetivo maior, mesmo naquela casa repleta de brinquedos dos quais Kevin não tinha interesse algum. Voltar a trabalhar escrevendo seus roteiros de viagens, e quiçá até voltar a viajar em uma frequência muito menor do que quando não era mãe, compunham a check list que Eva queria muito preencher para voltar a ser a pessoa que era. Foi durante esse período de transição que Kevin talvez tenha entendido a única coisa que lhe dava uma dose de prazer: destruir qualquer objeto ou sonho que garantisse alegria às pessoas ao seu redor. Quando sua mãe não estava mais no quarto, que naquele momento já estava exatamente do jeito que Eva queria, Kevin destruiu todos os mapas com uma arma de água que havia sido carregada com tinta preta minutos antes. Destruir aquilo que dava alegria à existência da sua mãe, mas não apenas da sua mãe, pareceu ser o único motivo verdadeiramente importante para Kevin seguir com a sua vida.

Quando a maternidade se torna uma escolha para Eva, ela decide ter mais um filho com Franklin; sua motivação era movida com o objetivo de provar que ela estava apta a ser mãe, e que na verdade todos os problemas pelos quais a família estava passando eram ocasionados por Kevin. Logo no nascimento, Celia, a mais nova integrante da família Khatchadourian, já demonstrava ser totalmente diferente do irmão. Sempre com um olhar interessado e gracioso, a menina era meiga e doce de uma forma que Eva não estava acostumada. Seu medo de que Franklin trataria a criança de uma forma diferente da qual tratava Kevin foi se tornando cada vez mais distante com a figura presente que ele se tornou na vida de Celia.

Com os relatos de Eva, o leitor vai se acostumando com o final dessa trama trágica; e a cada episódio sombrio fica mais fácil de entender como a quinta-feira fatídica ocorreu. Um massacres quase nunca apresenta uma explicação racional, ainda mais quando ocorrem no local em que adolescentes e crianças deveriam se sentir seguros e livres. As motivações de Kevin para prender um grupo de alunos no ginásio e alvejá-los com flechas não são totalmente explicadas – afinal, nem mesmo Kevin sabia o motivo de ter feito aquilo. A personalidade do garoto enquanto adolescente era totalmente contrária àquela que adultos normalmente esperam encontrar em jovens na puberdade. Kevin não tinha interesses, não possuía amigos de verdade, seu quarto era minimalista e monocromático demais e durante toda a trama o leitor percebe padrões mórbidos na vida familiar dos Khatchadourian.

Precisamos falar sobre o Kevin é um ótimo livro; sua escrita em forma de cartas, o que caracteriza um romance epistolar, foi um ótima escolha da autora Lionel Shriver para transmitir toda a carga emocional de uma vida completa de decepções e tragédias. Fica recomendado aqui o filme homônimo da diretora Lynne Ramsay, que apresenta fotografia impactante e uma paleta vermelha cor sangue.